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O lugar da inovação nos pequenos negócios

O lugar da inovação nos pequenos negócios

A inovação pode estar em ideias e ações simples, em pequenos ajustes de processos. Algo que pode ser fundamental para o desenvolvimento e o destaque de pequenos negócios dentro do mercado

Quando se pensa em inovação, muita gente associa a palavra a alta tecnologia e custos elevados. Mas isso não corresponde necessariamente à realidade. A inovação pode estar em ideias e ações simples, em pequenos ajustes de processos e em investir em diferenciais para melhor atender o cliente, iniciativas que fazem muita diferença para se destacar no mercado. Essa premissa é fundamental no caso dos pequenos negócios e empreendedores individuais, cada vez mais presentes no desenvolvimento do país.

De acordo com dados do Sebrae, existem no Brasil 6,4 milhões de estabelecimentos, dos quais 99% são micro e pequenas empresas (MPEs). O DataSebrae, que reúne indicadores sobre pequenos negócios, aponta que as MPEs respondem em média por cerca de 26% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, índice que traz uma pequena variação em cada macrorregião do país.

Nadir França, pesquisadora da Aliança Empreendedora e doutoranda na Escola de Administração da Universidade de São Paulo (USP), lembra que o reconhecimento do potencial do microempreendedor no Brasil é recente:

“O foco inicial sempre foi muito na qualidade – como começar um negócio, como fazer uma boa gestão, como desenvolver o microempreendedor. Agora, a gente precisa passar para um segundo ponto, que é como esse microempreendedor pode desenvolver seu potencial criativo e de diferenciação. E não somente nas questões relacionadas à tecnologia – embora hoje o microempreendedor esteja muito mais conectado com a virtualidade. Quando falamos em inovação, ela está relacionada à criação e diferenciação de produtos e serviços, em ir além da boa gestão. Ser capaz de acompanhar a dinâmica de mercado também em processos.”

Que o mercado cada vez mais é dos pequenos empreendimentos, não resta dúvida. Uma questão que se coloca a esses microempreendedores é como se destacar, e a inovação é a chave para essa resposta. E ela, na maioria das vezes, está nas pequenas coisas.

É o caso, por exemplo, de Edilene Cristina Paixão de Carvalho, 48 anos, que trabalha como revendedora da Danone, por meio do projeto Kiteiras – que busca melhorar a qualidade de vida de mulheres e suas famílias proporcionando oportunidade de renda, com base no modelo de negócios de vendas porta a porta. Edilene foi dispensada de uma empresa na qual trabalhou por 15 anos com promoção de vendas, e viu nos catálogos de kits de produtos um bom modo de recomeçar.

Foto materia inovação - Adilene

Pensando em como chamar atenção de seus clientes, Edilene começou a rodar e a vender os kits em um triciclo. Com o tempo, o triciclo deu lugar a uma moto. “No começo, ninguém sabia quem eu era. Agora, com a moto, eu fiquei conhecida como a tia do Danone aqui em Perus (zona norte de São Paulo, onde ela vende os kits). Eu divulgo o trabalho pelo WhatsApp e também entrego cartões. Os clientes já me mandam o número do kit que precisam. Tenho bastante vínculo com eles”, diz Edilene.

Hoje ela conta com cerca de 300 clientes, entre fixos e variáveis, em parte de área de abrangência de Perus, mas ainda vê potencial para expansão. “Não pensava em trabalhar por conta, mas tinha experiência com vendas. Quando eu comecei a vender os kits, recuperei conta no banco, cartão de crédito, e hoje eu sou microempreendedora. Trabalho para mim, consigo renda e controlo tudo. ”

Inovação é a alma do pequeno negócio

Para Lina Maria Useche Jaramillo, diretora executiva da Aliança Empreendedora, a inovação nos microempreendimentos tem a ver com um olhar diferente para o próprio negócio, a partir das necessidades do cliente, e com estar ligado ao que outros empreendimentos e setores estão incorporando de soluções.

“O microempreendedor pode inovar de várias formas: na entrega do produto ou serviço, na maneira de vender isso ao cliente, no formato de se comunicar com ele, ou de receber o feedback, na fidelização, enfim. Inovação nos negócios aqui tem muito a ver com um olhar mais estratégico, de atender a uma necessidade que o cliente explicitou de algum modo, ou que o próprio empreendedor, atento, conseguiu captar.”

Essa é a dinâmica que move, por exemplo, o Ludo Thinking, negócio criado por Anna Paula Sampaio Barbosa, 26, e sua sócia, Renata da Silva Machado, 35, em Vila Velha, no estado do Espírito Santo. Depois de trabalhar vários anos como analista de Recursos Humanos numa grande empresa, Anna se incomodava com a efetividade das metodologias usadas no treinamento de funcionários e líderes e com a transferência dessa aprendizagem para a prática. Numa conversa com Renata, que trabalhava com jogos para crianças, veio a ideia de desenvolver uma metodologia mais lúdica, que usasse jogos nos treinamentos.

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Criada há pouco mais de um ano, a Ludo Thinking tem como missão construir, sob demanda, ferramentas lúdicas e imersivas que promovam e facilitem a gestão do conhecimento nas organizações por meio de jogos, realidade aumentada e atividades gamificadas. Anna foi uma das vencedoras do Prêmio Hora de Brilhar 2018, iniciativa da marca Brilhante em parceria com a Aliança Empreendedora que busca reconhecer, valorizar e empoderar mulheres empreendedoras.

“A inovação está no nosso DNA. É o nosso diferencial, em todos os aspectos”, reflete Anna. O próprio modelo de negócio da dupla é inovador, porque aposta na capacitação de equipes internas das empresas e na redução dos custos com treinamentos corporativos. Isso possibilita também o acesso de pequenas e médias empresas a essa metodologia.

“Nós desenvolvimentos os jogos e capacitamos as equipes de RH para que os treinamentos sejam multiplicados por elas. O nosso trabalho é de desenvolvimento e produção do material institucional, do jogo. Mas a aplicação, palestras, treinamentos com funcionários, a própria equipe interna está capacitada a desenvolver a partir do treinamento que desenvolvemos”, completa.

A Ludo Thinking começou com jogos de tabuleiro, e aos poucos, guiada pela necessidade de permanente inovação, foi incorporando aplicativos e realidade aumentada. “A inovação é um dos valores do nosso negócio, porque sem inovação e sem criatividade não conseguiríamos crescimento, e talvez não conseguíssemos entrar no mercado. Estamos trabalhando agora em um projeto voltado a lideranças corporativas, por exemplo, que vai ter um tabuleiro com realidade aumentada e um aplicativo que pretende transformar hábitos. A própria teoria de liderança que estamos adotando é muito nova, nasceu lá no Vale do Silício [maior região de empreendedorismo inovador no mundo, localizada na Califórnia, nos Estados Unidos], e estamos trazendo isso para as lideranças brasileiras”, comenta a empreendedora.

Inovar sempre, não só em momentos de incerteza

Muitos de nós já ouvimos a expressão ‘que oportunidades aparecem em momentos de crise’. Nos últimos anos, essa tem sido uma tendência mesmo no país. Segundo dados do relatório “Empreendedorismo no Brasil – 2016”, do Global Entrepreneurship Monitor (GEM), o percentual de novas empresas criadas por necessidade saltou de 29% em 2014 para cerca de 43% em 2015, e se manteve praticamente estável em 2016. Esses números contemplam negócios registrados e empreendimentos informais.

Porém, a inovação não deve ser motor de propulsão apenas em situações como as que afetam o Brasil nos últimos anos. Quando o assunto é microempreendimento, ela é fator fundamental para o sucesso do negócio, independentemente do cenário onde ele se configura, apontam as especialistas.

“A inovação é palavra chave em momentos de crise e de não crise. No primeiro caso, ela é importante porque garante um potencial de adaptação à situação pelo empreendedor, seja melhorando seus processos, seja fazendo melhor uso dos recursos, com mais eficiência. O empreendedor consegue inovar nos processos, na estrutura da organização, se adaptar a esses momentos e passar por esse corredor mais estreito. Já em um momento de não crise, a inovação também é importante. Os microempreendedores têm como sua maior clientela pessoas da base da pirâmide. E quando aumenta a capacidade de consumo dos clientes, amplia-se também a exigência de qualidade. Numa situação de consumo mais favorecido, as pessoas melhoram sua situação financeira e vão buscar mais qualidade”, avalia Nadir.

Para a diretora executiva da Aliança Empreendedora, a inovação é muito importante em cenários de incerteza, porque o que garante a superação de crises é a capacidade de prestar atenção ao cliente e de se reinventar a cada momento.

“O Brasil sempre foi e será um lugar com muitas incertezas. E por isso tem tanto empreendedor. E os empreendedores precisam aprender a se mover dentro desse quadro. Uma autoanálise de agregação de valor ao produto ou ao serviço é muito importante para saber navegar em tempos de crise. Esse olhar, essa atenção constante ao cliente, é uma das grandes fontes de inovação. Outra grande fonte é olhar para o lado, para o que os outros pequenos negócios estão fazendo, o que estão trazendo de inovação, quais as ferramentas disponíveis para facilitar a vida do cliente e que podem ser incorporadas ao negócio. Trata-se de não deixar o empreendedor se fechar naquilo que ele acha que é certo, mas sim procurar se manter antenado nessas duas coisas.”

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