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Entre lucro e sustentabilidade, fique com os dois

Entre lucro e sustentabilidade, fique com os dois

Entre se dedicar a uma empresa que lhe garanta lucro e cresça perante o mercado ou investir num negócio que proporcione o bem estar social a muitas pessoas, há quem diga ser possível ficar com as duas possibilidades. A defesa do fim da dicotomia entre lucro e sustentabilidade sócio-ambiental é feita, especialmente, pelas incubadoras e apoiadoras de negócios sociais.

De acordo com Rodrigo de Mello Brito, co-fundador e diretor executivo da Aliança Empreendedora, organização de apoio a microempreendedores, a principal característica de um negócio social é que ele nasce, existe e se desenvolve com o objetivo claro e explícito de solucionar ou contribuir para a solução e redução de desafios e problemas sociais e ambientais.

“Ou seja, não busca apenas o lucro, mas a melhoria da qualidade de vida e redução de desigualdades pela sua atuação, na mesma proporção em que busca resultados financeiros e rentabilidade”, explica ele. Nesse desenho, o lucro é tratado como estratégia e fonte de investimento para expansão de impacto. E não como gerador de riqueza para quem empreende.

Princípios sociais

É preciso, no entanto, fazer uma distinção conceitual. Afinal, conforme ilustra Brito, quase todos negócios, ONGs (organizações não-governamentais) e empresas tradicionais geram melhorias de qualidade de vida como a indústria farmacêutica, de alimentos, transportes, hospitais, softwares, escolas e inúmeras outras. “A diferença para os negócios sociais é que estes, ao invés de oferecerem soluções apenas com fim de lucro e para quem pode pagar, elaboram produtos, serviços e modelos de negócios focados para que gerem principalmente impacto social positivo e sejam viáveis para quem, a princípio, não pode pagar”, afirma. Para tanto, utilizam de estratégia, parcerias e criatividade.

Para Maure Pessanha, diretora do Centro de Formações em Negócios Sociais da Artemísia, um negócio dessa categoria se norteia mais pela possibilidade de viabilizar acesso das pessoas aos produtos e serviços do que a de apenas lucrar. Dessa maneira, é preciso entender as comunidades de baixa renda não só como consumidoras, mas também como protagonistas do desenvolvimento do empreendimento. “São iniciativas economicamente viáveis que utilizam mecanismos de mercado para atender às demandas sociais, com produtos e serviços focados na redução da pobreza ou melhoria da qualidade de vida das pessoas”, elucida. Ou seja, viabilizando o acesso de pessoas de baixa renda a produtos e serviços aos quais não teriam, naturalmente, acesso, mas que podem melhorar sua qualidade de vida.

Como exemplo, ela cita um serviço de arquitetura para pessoas de baixa renda. “Muitas pessoas fazem obras em casa sem assessoria técnica nenhuma, gastando muito. Um trabalho social nesse sentido é benéfico, pois dá segurança à construção com economia”, diz.

Cadeia de valor

Por vezes, os aspectos de sustentabilidade não estão no ponto final de consumo, na promoção do acesso a inovação por camadas menos abastadas da sociedade. Um negócio social pode estar configurado para que sua cadeia produtiva seja sustentável.

Um exemplo, citado por Maure, é o de um produtor de vegetais orgânicos de São Paulo. Segundo explica, a empresa atua na distribuição da produção de pequenos produtores, que sozinhos não passam pelos critérios de compra de grandes redes de supermercados. O foco desse empreendedor social é obter lucro por meio da viabilização do mercado aos produtos orgânicos desses pequenos agricultores.

“Antes de ser social é um negócio. Então, a lógica de negociação tem que ser baseada no lucro. Por isso, precisam de capital e têm que ser pensados como negócio, em sua sobrevivência”, salienta a diretora da Artemísia. Para ela, essa é uma das grandes diferenças em comparação a organizações sociais que dependem de doação ou repasses. “Esse tipo de negocio tem que ter lógica de sustentabilidade financeira, ainda que a margem de lucro seja, em muitos casos, menor”, observa. Ela defende que, para aumentar a margem, os empreendedores sociais precisam primar pelo ganho de desempenho, pela excelência operacional em busca da redução de custos por meio da inovação.

Céu como limite

Uma vez que o lucro está dentre os objetivos, não há limite de expansão, impacto social, lucro – ou prejuízo – em um negócio social, assim como ainda não existem entidades reguladoras desses negócios no Brasil. “O que acaba por definir os limites e abrangência destes negócios é a criatividade, competência, capilaridade, recursos e capacidade operacional de cada um deles”, afirma Brito. Ele aposta que, no Brasil, o campo é fértil para florescimento de negócios desse tipo. “Temos uma população diversa, grande sensibilidade de organizações e da população para questões sociais e ao mesmo tempo grandes desafios em diversas áreas como saúde, educação e moradia”, analisa.

Ele conta, ainda, que há negócios sociais que nascem já atuando em âmbito nacional ou mesmo presentes em diversos países de um ou mais continentes como África, Ásia e América do Sul. Como exemplos cita empresas sociais e ONGs que vendem filtros de água, remédios e óculos de baixo custo, equipamentos que aumentam a produtividade de pequenos agricultores ou até mesmo bicicletas e motocicletas em países com pouca infra-estrutura de estradas.

Maure endossa a afirmação de Brito e conta o caso de um grupo de estudantes que desenvolveu um cobertor que mantém o aquecimento de bebês nascidos prematuros. Segundo conta, os empreendedores concluíram que a principal causa de morte desses bebês é a falta de aquecimento alias ao altíssimo custo das incubadoras tradicionais. Com seu produto, de baixo custo e acessível por pessoas de renda muito baixa, conseguem atingir um público gigantesco. Afinal, 15% dos bebês no mundo são prematuros e, desses, 90% não sobrevivem.

Para melhor explorar a oportunidade, tiveram, conta ela, de visitar as pessoas. Assim puderam perceber que a maior parte delas não tinha acesso nem a energia elétrica. Dessa maneira, foi necessário desenvolver uma tecnologia que pudesse manter a temperatura mesmo sem eletricidade. “Especialmente no Brasil, em que as classes C e D estão crescendo significativamente, é um produto que, quanto mais for vendido, mais impacto social terá. E lida com uma questão social profunda, além de ser totalmente inovador”, conta ela.

Oportunidades à vista

Para melhor atuar no segmento de negócios sociais é preciso conhecer e compreender as necessidades das pessoas, analisando de forma aprofundada o cotidiano, as necessidades, os sonhos, a mentalidade, a cultura, a trajetória, a organização social e o comportamento das pessoas a serem atendidas. Somente dessa maneira, opina Brito, é possível vir a pensar e pesquisar soluções que atendam verdadeiramente às necessidades de maneira viável e com a qualidade necessária.

“Como disse Peter Drucker, transformar necessidades em demanda é uma ótica dica para quem quer identificar oportunidades. E hoje existe uma infinidade de necessidades não atendidas por milhões de pessoas que não participam das Classes A, B e C, seja em questões básicas como habitação, educação e saúde como também em outras necessidades que todos temos como cultura e entretenimento”, assegura Brito.

Ele lembra, ainda que como qualquer empresa tradicional, um negócio social vive os mesmos desafios de gestão, acesso a capital, mercado,etc. para que possa dar certo. Além disso, enfrenta alguns desafios adicionais como as necessidades de: repensar o papel do design e da tecnologia de produtos para que apresentem qualidade com preços acessíveis; de repensar o modelo de precificação e cobrança; construir redes de relacionamentos, parcerias e confiança com públicos e comunidades muitas vezes excluídos.

As iniciativas de apoio a empreendedores, como a Artemísia e a Aliança Empreendedora, auxiliam empreendedores que tenham interesse de desenvolver negócios e participar da cadeia dos negócios sociais.

Exemplos de negócios sociais com atuação mundial

Outros negócios sociais atuam beneficiando diversos locais, principalmente por meio da Internet, como é o caso de empresas de comércio justo que comercializam produtos de microempreendedores pela web como a World of Good, do E-bay, ou a Solidarium, no Brasil.

Além do e-commerce, a web também virou um importante canal de microcrédito de sites e portais que conectam investidores – sociais ou não – de todo o mundo a organizações de microfinanças e microempreendedores de países em desenvolvimento por meio de empréstimos pessoa a pessoa, como é o caso do KivaMicroPlace ou  o Portal Impulso no Brasil.

Fonte: Santander Empreendedor

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