O empreendedorismo é, sem dúvida, uma força motriz de transformação. Ele se manifesta de diversas formas no Brasil e, nos últimos anos, tem se mostrado uma das principais vias de inclusão produtiva. Foi com esse entendimento que a Suzano, em parceria com a Aliança Empreendedora, desenvolveu o Empreendendo o Futuro — um projeto de dois anos, inicialmente pensado para as regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste do país. Desde o início, havia um ponto de atenção essencial: retirar mais de 2 mil pessoas da linha da pobreza. É a partir dessa perspectiva que este artigo se desenvolve.
O que significa viver na linha da pobreza?
Segundo parâmetros utilizados pelo Governo Federal e alinhados ao Banco Mundial a linha da pobreza no Brasil em 2024 é definida por um valor de renda aproximado de R$ 665 por mês (cerca de R$ 6,85 por dia), valor considerado mínimo para suprir necessidades básicas. No cenário global, o Banco Mundial considera como extrema pobreza quem vive com menos de US$ 2,15 por dia. Embora o projeto utilize como referência a linha da pobreza definida pelo Governo Federal, é importante destacar que a pobreza não se limita a um valor financeiro. A renda é apenas uma dimensão entre muitas outras que compõem a vida de uma pessoa em situação de vulnerabilidade. A pobreza é multidimensional.
Diante desse cenário em mente, ficou evidente que a metodologia do Empreendendo o Futuro precisaria ser adaptada. O objetivo era construir uma capacitação que fizesse sentido para a rotina, os negócios e o estilo de empreender de cada participante. Ao mesmo tempo, era fundamental realizar uma avaliação detalhada capaz de mostrar se as intervenções do projeto, como a capacitação por exemplo, estavam de fato, melhorando as condições financeiras e sociais das pessoas atendidas e contribuindo para que elas saíssem da linha da pobreza.
“Trabalhar com um público em constante oscilação socioeconômica exigiu metodologias flexíveis, acompanhamento próximo e capacidade de adaptação rápida às mudanças de contexto. Foi possível identificar caminhos mais realistas de fortalecimento de renda, construir estratégias mais alinhadas ao cotidiano das famílias e gerar aprendizados que ampliaram o impacto da iniciativa”, conta Verônica Maia, coordenadora do Projeto Empreenda o Futuro da Aliança Empreendedora.
Dois anos de transformação: números que revelam histórias
Ao longo de seus dois anos, o projeto passou por 07 munícipios e capacitou direta e indiretamente mais de 5 mil microempreendedores que atuam em áreas como alimentação, artesanato, serviços e outros segmentos. De acordo com pesquisa qualitativa, 2110 empreendedores foram retirados da linha da pobreza após participarem da ação.
Esses números são importantes não apenas pelo alcance do projeto, mas porque representam histórias de famílias, comunidades e redes de apoio que se fortaleceram por meio do empreendedorismo.
O grande diferencial do projeto foi integrar, em uma única jornada, diversas metodologias e programas já consolidados da Aliança. Esse fluxo completo foi aliado a um cadastramento inicial que trouxe uma visão multidimensional do perfil dos empreendedores, indo além da renda, compreendendo de forma ampla a complexidade de vulnerabilidade deste público. Ao comparar dados de curto e médio prazo e realizar avaliações de impacto três meses após os momentos de contato do participante com o projeto, foi possível medir mudanças reais na trajetória, percepção e qualidade de vida dos participantes, tornando a metodologia especialmente robusta e orientada por evidências.
“O saber dele já é um negócio”: o propósito do projeto
“O foco do projeto é a capacitação empreendedora. Queremos mostrar ao participante que o conhecimento que ele já tem pode se transformar — ou já é — um negócio. A partir daí, ajudamos a melhorar esse negócio para que, no futuro, ele cresça, gere renda e se formalize”, explica Érica Viana, consultora de desenvolvimento social da Suzano e gestora do Empreendendo o Futuro da Suzano, e responsável por acompanhar o projeto com a Aliança Empreendedora.
Mari, 60 anos: a personal chef de Salvador que dobrou sua renda
Entre os protagonistas do projeto está Marilurdes Oliveira, da Pratos da Mari, 60 anos, personal chef e moradora da comunidade de Brotas, em Salvador (BA). Em sua casa, rodeada por fotos da família e certificados de cursos, ela contou que buscou capacitação quando percebeu que precisava aprender mais sobre precificação.
Mari destacou a importância da formação e da parceria com sua mentora, Carla:
“A mentoria individual foi um avanço pra mim… consegui fazer coisas que eu não fazia, por exemplo, ficha técnica, fluxo de caixa, MEI. Meu faturamento praticamente dobrou, porque antes eu tinha uma precificação baixa”.
A empreendedora também contou sobre a força da rede criada durante a capacitação. Para ela, o grupo de mulheres participantes foi essencial para troca de experiências e aprendizado. Outro ponto que fez diferença foi a modalidade online, que permitiu realizar os desafios nos horários compatíveis com sua rotina.
Com a nova precificação e a organização dos serviços, Mari quase dobrou seu rendimento e passou a personalizar ainda mais seu trabalho como personal chef.
“Foi o início de uma abertura de mente, né? Fui conhecendo a Aliança, o Tamo Junto, os cursos, e aí foi abrindo mais minha mente. Antes eu pensava que o que tava na minha mão era meu lucro, mas não era. E tudo isso é gratuito!”.
Glorinha, Ilha de Maré: empreendedorismo que atravessa caminhos — literalmente
Para conhecer outras histórias, a equipe da Aliança Empreendedora e da Suzano viajou de Salvador até a Ilha de Maré, onde vive Maria da Glória, 46 anos, a Glorinha, que vende pastéis e geladinhos na Praia das Neves.
A praia de areia clara é o cenário onde ela nos recebe para contar sobre a formação. Para participar das atividades presenciais, Glorinha caminhava cerca de 40 minutos até o outro lado da ilha, um esforço que, segundo ela, valia a pena. A empreendedora ressaltou a importância de um projeto que chega a regiões mais afastadas, muitas vezes esquecidas.
Durante a capacitação, Glorinha formou uma forte rede de mulheres da ilha e já planeja formas de unir os negócios locais para fortalecer ainda mais a economia da região.
Entre os aprendizados mais transformadores, novamente surge a precificação: antes da formação, os produtos vendidos não garantiam margem suficiente para reinvestir no negócio. “Agora a gente sabe o que a gente pode gastar, economizar, gastar de mercadoria, para não comprar em excesso e perder mercadoria”, explica Glorinha.
Quando metodologia, rede e capacitação mudam comunidades
O Empreendendo o Futuro mostra, na prática, que capacitações combinadas com redes fortalecidas e metodologias adaptáveis são capazes de promover mudanças profundas. Mais do que transformar a realidade de empreendedores individuais, o projeto impacta comunidades inteiras, ampliando oportunidades e criando caminhos sustentáveis de geração de renda.
No Empreendendo o Futuro, contamos com 5 organizações aliadas: Coletivo de Resistência Preta, Instituto Reparação, Centro Comunitário Unidos Pelo Social (todas em Salvador), República das Arteiras e Bruaca (Campo Grande) e Mensageiros da Esperança (São Paulo) que receberam o repasse metodológico da Aliança Empreendedora e atuaram localmente na articulação e capacitação dos empreendedores. Além delas, o projeto se fortaleceu por meio de uma ampla rede de parceiros institucionais — entre eles, as Secretarias do Maranhão, a Prefeitura de Salvador, a Secretaria de Economia Criativa de Campo Grande e a Secretaria da Mulher do Espírito Santo — que ampliaram o alcance e ajudaram a conectar o projeto ao público-alvo de cada território.

