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A moda como agente de mudança

A moda como agente de mudança

Como o cuidado com a cadeia de fornecedores pode contribuir para o trabalho justo e para a renda digna

Nos últimos anos, a moda tem se destacado não só pelas tendências das passarelas, mas também pela revisão de sua cadeia produtiva em direção a mais sustentabilidade e relações de trabalho mais justas.

Projetos como o Tecendo Sonhos, da Aliança Empreendedora, e iniciativas como o trabalho da Alinha, o Brasil Eco Fashion Week e o Índice de Transparência da Moda mostram que esse caminho avança no Brasil, buscando incentivar cadeias produtivas mais saudáveis e combatendo o trabalho análogo ao escravo.

Ainda assim, segundo dados da ONG Repórter Brasil, desde 2010 centenas de costureiros e costureiras foram encontrados em condições degradantes de trabalho no país. A maioria dos casos foram flagrados em pequenas confecções terceirizadas na região metropolitana de São Paulo. As vítimas mais comuns são migrantes de países sul americanos.

A Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) aponta que o faturamento desta área no país é de US$ 51,58 bilhões, empregando diretamente 1,5 milhões de trabalhadores. O Brasil tem mais de 100 escolas e faculdades de moda, e o campo cresce ano após ano.

Conversamos com Marina de Luca, cofundadora do site Moda Limpa e embaixadora do projeto Tecendo Sonhos, sobre como iniciativas em andamento no país, que incidem sobre a cadeia produtiva da moda, podem incentivar o trabalho justo e a renda digna nesse meio, tornando-o mais sustentável.

Como você vê hoje a cadeia produtiva da moda no Brasil, em especial a área de costura, em relação ao incentivo ao trabalho justo e à renda digna?

Marina: Esse é um movimento que ganhou grande força quando houve a queda do edifício do Rana Plaza, em Bangladesh, há cinco anos [que revelou o trabalho em condições indignas na indústria têxtil na Ásia e abriu a discussão a respeito disso em todo o mundo], e com o surgimento do Fashion Revolution, um movimento que luta pela transparência da cadeia produtiva.

Desde então, esse assunto virou uma pauta importante em vários âmbitos. Muitos consumidores passaram a cobrar das marcas compromisso com mais sustentabilidade. Então, elas começaram a se preocupar e a trabalhar em sua própria cadeia produtiva. Eu não vejo isso acontecendo por que as marcas e as fábricas realmente se preocupam com o trabalho justo e a renda digna, mas sim por causa dessa pressão do consumidor. O que não desmerece esse movimento, acho que o que importa é que a gente lute e consiga conquistar uma relação de trabalho justo e de renda digna.

O comportamento das pessoas está mudando para entender mais de onde vem o que se consome. Há uma pesquisa do Akatu, que saiu recentemente, que traz dados interessantes sobre o assunto. Um dos dados que me impactou bastante é que um dos pontos que motivaria a mudança na decisão de compra de um consumidor seria o produto ter algum tipo de trabalho escravo ou infantil envolvido. A pessoa deixaria de comprar. Então, isso já é um valor para o consumidor.

A nova economia colaborativa tem ajudado também nessa mudança. Porque o dinheiro fica mais distribuído, mais pessoas tem acesso às formas de fazer. E a internet também fez com que a informação fosse muito mais acessível para as pessoas saberem sobre os seus direitos.

Acho que falta um trabalho de educação dentro das faculdades de design e de moda sobre o que é trabalho e comércio justos. Vejo muitas pessoas saindo das faculdades, abrindo negócios e querendo pagar o mínimo possível para seus costureiros e costureiras para lucrar mais, sempre com aquele medo da escassez. Há um grande trabalho educacional a ser feito.

Eu também convivo com pessoas que abrem marcas e querem trabalhar com cooperativas de costura sob os preceitos de economia solidária, mas fazem isso sem nenhuma formação e informação, e querem sempre pagar o mínimo possível. Questionam centavos de cooperativas que, na verdade, estão fazendo um custo transparente e mostrando qual seria um preço justo por uma costura de uma roupa.

Pode citar exemplos de iniciativas no Brasil que seguem no sentido de eliminar o trabalho análogo à escravidão e promover trabalho saudável?

Marina: O Índice de Transparência da Moda 2018, realizado pelo Fashion Revolution Brasil, foi lançado no último dia 11 de outubro. Ele traz a avaliação de 20 grandes marcas a partir das informações que elas disponibilizam em suas redes oficiais a respeito de seus processos de produção e fornecedores. O movimento provocou uma mudança, uma preocupação dessas grandes marcas em relação aos processos de transparência. Elas começaram a se atentar mais para a divulgação de suas práticas e a olhar as outras marcas que ficaram melhor posicionadas no ranking para se inspirar em outras boas práticas.

Está acontecendo também aqui o Brasil Eco Fashion Week, a primeira semana de moda sustentável no país, um movimento que está mexendo bastante com a indústria têxtil e o comércio de varejo vestuário.

Outro bom exemplo é o lançamento de linhas de produtos sustentáveis pelas grandes varejistas C&A e Renner, que começaram a demandar novas tecnologias para oferecer artigos mais sustentáveis. O fato de duas grandes magazines de fast fashion criarem peças sustentáveis mexe com o mercado. Elas também estão criando cada vez mais programas de combate ao trabalho escravo e de comércio justo. Eu não diria que são exemplos nisso, mas o fato de estarem falando e fazendo, mesmo que pouquinho, é importante.

Outra iniciativa que merece destaque é o trabalho do Instituto Alinha, parceiro da Aliança Empreendedora, que está transformando a vida de muitas pessoas, principalmente de imigrantes da América Latina que trabalhavam em condições análogas à escravidão.

Qual o papel do incentivo ao empreendedorismo em relação a essa cadeia produtiva?

Marina: Acho muito importante, mas é preciso tomar cuidado com a condução desse tema. Nem todas as pessoas que gostam de costurar gostariam de ser empreendedoras. Ao mesmo tempo, o ensino do empreendedorismo para que as pessoas possam se libertar de situações talvez análogas à escravidão e construir seus próprios negócios é um dos caminhos de sucesso para resolver esse problema.

O empreendedorismo faz parte da personalidade, do jeito de ser, não só de teoria, de aprendizado. Acho muito importante que, nesse incentivo ao empreendedorismo, o comércio e o trabalho justos sejam um pilar.

Como o Moda Limpa se insere nesse universo?

Marina: O Moda Limpa é um site para compartilhamento de dicas de fornecedores que estejam alinhados com uma produção mais limpa e uma moda mais sustentável. Consumo consciente, sustentabilidade e ética na moda são seus pilares. O banco de dados do Moda Limpa é feito de forma aberta, ou seja, qualquer um pode indicar fornecedores com os quais já trabalhou e confia. Quem presta serviços também pode se auto indicar. Os fornecedores são avaliados pelos próprios clientes por meio dos comentários e feedbacks, que podem ser feitos de maneira anônima ou não.

Para se cadastrar no site não é preciso ser 100% sustentável, até porque não existem empresas assim. Basta ter uma prática de menor impacto, que possa ser contratada por alguém ou que possa inspirar outras marcas a utilizarem.

As transformações do Moda Limpa já estão reverberando. Por exemplo, um dos cadastrados no site é uma cooperativa de costura que trabalha com o conceito de Economia Solidária, a Pano Pra Manga, cadastrada pela marca de roupas Jouer Couture. Após o cadastro no site elas receberam um número considerável de contatos de novos clientes que não as teria encontrado sem o site. Ou seja, estamos dando força para pequenos e ao mesmo tempo distribuindo melhor produções e valores que eram pagos de maneira não tão legal antes.

A garantia da responsabilidade mais sustentável cabe a cada usuário. Após trabalhar com o fornecedor, incentivamos o usuário a acrescentar comentários sobre a experiência, bem como uma avaliação com notas para algumas características relevantes referentes à sustentabilidade e ética.

Você é embaixadora do projeto Tecendo Sonhos, desenvolvido pela Aliança Empreendedora. Como avalia o projeto e a formação de redes nesse contexto de promoção de trabalho justo e sustentável?

Marina: O projeto Tecendo Sonhos tem sido muito eficaz no combate ao trabalho escravo e no incentivo ao trabalho justo. Na experiência que tive como voluntária e como embaixadora, conheci várias pessoas que são imigrantes da América Latina, principalmente da Bolívia, do Peru e do Paraguai, que moravam e viviam na região do Bom Retiro e do Brás, em São Paulo, trabalhando em condições análogas à escravidão, e que por meio do projeto conseguiram sair e tomar as rédeas da própria vida e de seus negócios. Alguns inclusive até saíram do meio da costura e abriram negócios em outras áreas. E isso foi possível justamente por causa da formação educacional e do acompanhamento afetivo que o Tecendo Sonhos proporcionou.

Um dos pontos bem essenciais do projeto é a articulação com os outros players do Brasil, tanto da área privada como do governo, que também faz toda a diferença na efetividade do trabalho.

E também uma coisa que acho muito linda do Tecendo Sonhos é que ele escuta muito as lideranças locais dos imigrantes da América Latina. E respeita o lugar de fala de cada um, as opiniões e as palavras e nunca se coloca no sentido de trazer verdades e mudar os pensamentos de ninguém, mas sim no caminho da empatia, da construção conjunta, ajudando sempre a conhecer mais da cultura brasileira sem perder a cultura de cada um.

Isso é essencial, tanto para a construção do empreendedorismo como da identidade desses imigrantes aqui, como cidadãos agora brasileiros, e de entendimento dos seus direitos, para que possam se sentir donos de suas vidas. Fui voluntária acompanhando a monitora de uma boliviana chamada Gladys, há dois anos, e a gente se fala até hoje. Criamos uma relação afetiva também, e eu aprendo muito. Ela hoje tem uma vida bem mais digna e saudável do que antes de passar pelo projeto.

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