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Microfinanceiras ampliam possibilidades de financiamento para os empreendedores de baixa renda

Microfinanceiras ampliam possibilidades de financiamento para os empreendedores de baixa renda

Você já parou para pensar sobre a importância do acesso a crédito para microempreendedores? Saiba como esses investimentos podem transformar vidas e pequenos negócios

Acesso a crédito no Brasil ainda é um dos maiores desafios para os microempreendedores. Quem já tentou buscar recurso, por menor que seja, tem na ponta da língua as dificuldades. Mas quem já conseguiu e aplicou de maneira assertiva o crédito, pode colher as melhorias em seu negócio.

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É o caso de Jhones Rodrigues dos Santos, 24 anos, cujo negócio – O Rei dos Pastéis, em Caruaru, Pernambuco – dobrou o faturamento depois que conseguiu e aplicou um microcrédito de R$ 3.000,00. O dinheiro foi empregado em reformas físicas no salão da pastelaria, incluindo iluminação e melhorias na cozinha. “Às vezes você tem um bom produto, mas as pessoas querem também mais conforto [para consumir o produto], um ambiente melhor. Consegui reformular o cardápio, aumentar a área da entrada, e passei a ter mais movimento. Quando fiz as melhorias, consegui dobrar meu faturamento”.

Jhones saiu de um emprego formal para começar a pastelaria. De cara, esbarrou na necessidade de capital. Ele conseguiu R$ 3 mil de microcrédito por meio de uma linha do banco Santander. E um agente do banco sugeriu que ele participasse do programa Parceiros em Ação, da Aliança Empreendedora. “O que a Aliança me passou em uma semana, consegui aplicar no meu negócio, e isso me abriu a mente. O dinheiro não serve muito sem o conhecimento. Eu consegui identificar meus erros e passei a aplicar o recurso de modo certo. O dinheiro rendeu mais, e a reforma já ajudou a trazer mais clientes”, conta.

A vontade de iniciativa de empreendeder muitas vezes esbarra na dificuldade de acessar crédito. O próprio Jhones admite que estava bastante desmotivado antes de conseguir o capital para melhorar o desempenho de seu negócio. “Não é fácil acessar o crédito, porque os bancos emprestam para quem tem nome limpo. Muitas vezes o empreendedor tem ideias que consegue tirar do papel e precisa de um pequeno crédito para avançar, mas por causa de pendências financeiras não consegue o empréstimo no banco. O empreendedor precisa de apoio. Os bancos poderiam ser mais maleáveis, ouvir mais. Acreditar, mesmo se a pessoa estiver inadimplente. Para que ela possa quitar as dívidas e fazer o negócio crescer, gerar mais renda, promover a circulação de dinheiro. Hoje poucos conseguem isso.”

Facilitando o acesso

Segundo levantamento realizado em 2015 pelo Banco Central, o microcrédito – que engloba financiamentos de até R$ 15 mil para pequenos negócios – não chega a 0,5% das operações do Sistema Financeiro Nacional. Esse percentual não inclui, no entanto, novas organizações que vêm surgindo com a finalidade de facilitar o acesso a microcrédito para esses empreendedores.

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A Firgun, mais nova parceira da Aliança Empreendedora, é uma dessas organizações cuja proposta é facilitar o acesso de empreendedores de baixa renda ao microcrédito por meio de financiamento coletivo. Para isso, cria campanhas online para que os empreendedores captem recursos e posteriormente retornem o valor aos investidores em parcelas sem juros.

O trabalho é realizado em breves etapas, e começa com a parceria com ONGs e instituições que capacitam empreendedores de baixa renda na periferia de São Paulo e que indicam aqueles que estão prontos para receber investimento financeiro. Após essa etapa, a Firgun faz uma seleção por meio de testes para diagnosticar o nível de planejamento e organização dos empreendimentos, vai conhecer a história e a trajetória desses empreendedores; produz um vídeo sobre o negócio, conteúdo e uma campanha de financiamento coletivo. Inicia-se então a divulgação para arrecadar o recurso em plataformas digitais.

“A gente tem uma inquietação, que é a vontade de promover impacto social. E pensamos em promover isso por meio das finanças. Decidimos trabalhar essa área de microcrédito. O Brasil é um dos países mais ricos do mundo, e ao mesmo tempo um dos mais desiguais. É também um dos mais desiguais em termos de acesso a crédito financeiro. A gente acredita que a transformação dessa realidade vai acontecer com investimento, e não com doação. A doação é muito importante, claro. Mas não basta o dinheiro chegar no bolso dessa pessoa. Ele tem que chegar com qualidade”, diz Lemuel Simis, 24 anos, um dos sócios da Firgun.

Ele lembra que um dos maiores gargalos que os empreendedores têm é justamente a dificuldade de acesso ao crédito, e cita o levantamento do Sebrae, segundo o qual mais de 60% dos microempreendedores tomariam empréstimo se os mecanismos para isso fossem menos burocráticos, e se os juros fossem menores.

“As condições deveriam ser mais interessantes para atrair esses microempreendedores. Há uma demanda significativa, que os grandes bancos não demonstram interesse em resolver. E por isso a importância das Fintechs [startups que trazem inovações para o mercado de serviços financeiros, com soluções muito mais acessíveis], que vêm para trazer competitividade para esse mercado tão pobre de opções”, avalia Lemuel.

Nesse movimento, a Firgun vem estabelecendo parceria com uma rede de organizações, dentre as quais a Aliança Empreendedora, que trabalham fomentando o empreendedorismo ou capacitando empreendedores. “Nessa relação com a Aliança vamos encontrar empreendedores aptos a tomarem empréstimo, reforçando aquela ideia de que dinheiro por dinheiro não causa impacto social. A gente quer que esse empréstimo se reverta em impacto, e não vire uma dívida”, diz Lemuel.

Hoje a Firgun tem 12 projetos financiados, já na fase de pagamento das parcelas, totalizando quase R$ 100 mil em empréstimos vindos dos bolsos de 150 heróis e heroínas Firgun – como são chamados os financiadores/investidores. A média de investimento por pessoa é de R$ 700. A partir de R$ 25,00 já é possível investir nos empreendedores.

Novas soluções

Segundo o Mapa de Apoio ao Microempreendedor Brasileiro, pesquisa realizada pela Aliança Empreendedora e pelo Bank of America Merrill Lynch, a oferta ao crédito aparece como recurso menos disponível para os microempreendedores, independente das características de gênero, raça e localização. Assim, modelos de negócios inovadores e inclusivos para viabilizar acesso a crédito aparecem como demanda prioritária, não só pelo acesso ao capital, mas também pelos potenciais ganhos associados a esse tipo de apoio, como conhecimento em gestão, educação financeira, acesso a serviços, entre outros.

A chegada da Firgun à rede de parceiros da Aliança vem associada ao programa Geração Empreendedora, que trabalha junto a jovens de 18 a 35 anos. “A gente sempre teve vontade de oferecer crédito, e oferecemos via Impulso antes de 2010, mas logo vimos que esse não era o core da Aliança. Já tivemos parcerias com a Caixa Econômica e com o Banco do Brasil, mas com a crise econômica elas deixaram de ser interessantes, por utilizarem as mesmas ferramentas de análise e poucos empreendedores conseguiram acessar. Então, passamos a buscar parceiros que tivessem outras formas de olhar para o microempreendedor, reconhecendo a realidade dele e as dificuldades, o que os bancos não conseguem fazer na maioria das vezes. E veio a parceria com a Firgun”, diz Tatiana Rogovschi Garcia, coordenadora de projetos da Aliança.

A Aliança abriu recentemente uma chamada para microfinanceiras, e em uma semana cinco instituições já se cadastraram. O próximo passo é a elaboração de material para explicar aos microempreendedores como se dá o funcionamento dessas parcerias e quais as formas de acessar o capital. “Com a crise, os bancos estão dificultando cada vez mais o acesso a crédito. E aí vem um movimento interessante: começam a surgir, as vezes nas próprias periferias, modos alternativos de lidar com essa situação. Vemos jovens empreendendo negócios que levam acesso a crédito para pessoas de baixa renda. E criando outras oportunidades de trabalho. A Firgun é uma organização criada por jovens para dar acesso a capital para esses microempreendedores que estão numa situação muito mais vulnerável e complexa”, avalia Tatiana.

“Queremos um movimento de união, de pensar junto essas formas de apoio, de capacitação do empreendedor, de modo que a gente trabalhe para que ele consiga acessar o crédito e melhorar o seu desempenho financeiro para presentar menos risco de pagamento. Para essas organizações de microcrédito, a formação do empreendedor é um ponto interessante a se olhar, e essa é um pouco da nossa proposição”, conclui.

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