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Inclusão empreendedora é caminho para geração de renda e enfrentamento das desigualdades

Inclusão empreendedora é caminho para geração de renda e enfrentamento das desigualdades

Especialistas apostam no empoderamento dos microempreendedores e na construção em rede nos territórios para potencializar o setor.

“O empreendedorismo por si só não é solução para a pobreza no Brasil, mas conciliado a programas de educação para jovens e adultos, acesso a novas tecnologias financeiras e de gestão, desburocratização de legislações arcaicas e amparado por redes de instituições de apoio ao empreendedor de âmbitos locais e nacional, pode sim fazer a diferença e tornar-se uma forte política promotora da inclusão econômica e social de milhões de famílias.”

A reflexão é de Vandré Brilhante, diretor-presidente do Centro Integrado de Estudos e Programas de Desenvolvimento Sustentável (CIEDS). A organização desenvolve tecnologias sociais para o empreendedorismo que buscam criar oportunidades econômicas e sociais para os que mais precisam.

O tema da Inclusão Empreendedora dá nome é uma das unidades de negócios da Aliança Empreendedora, cujo trabalho consiste em apoiar empresas, organizações da sociedade civil e governos a desenvolver modelos de negócios inclusivos e projetos de apoio a microempreendedores de baixa renda, ampliando o acesso a conhecimento, redes, mercados e crédito para que desenvolvam ou iniciem seus empreendimentos.

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“Vemos a inclusão empreendedora como um despertar para a possibilidade do empreendedorismo como fonte de renda definitiva. Temos uma cultura do trabalhador ‘por conta própria’ e, normalmente, esses trabalhadores enxergam essa forma de geração de renda como algo provisório. Isso tem consequências para o negócio e, logo, para a economia de uma maneira geral, pois faz com que esses trabalhadores não invistam em seus negócios para que eles cresçam”, explica Helena Casanovas Vieira, cofundadora e diretora de pesquisa e desenvolvimento da Aliança Empreendedora.

Uma das maneiras de combater a desigualdade é promovendo o acesso à renda. Nesse sentido, o empreendedorismo é visto como uma ferramenta que independe de escolaridade, idade, gênero, entre outras características prévias.

Para a diretora da Aliança, a população brasileira possui uma vocação empreendedora, mas não se enxerga dessa maneira e, por isso, não cresce e não se estrutura.

“Quando os apoiamos, eles passam a se enxergar como empreendedores e essa mudança é o gatilho inicial para a estruturação desses negócios. Acesso a informações básicas faz com que esses empreendedores faturem mais e consigam melhorar suas vidas e de suas famílias. Nossos dados mostram que os empreendedores apoiados ganham em torno de dois salários mínimos a mais do que quando eram empregados.”

Empreender se aprende

Uma das frentes de trabalho da Aliança, ligada ao tema, consiste em planejar, executar e avaliar projetos de apoio a microempreendedores de baixa renda com o objetivo de desenvolver competências empreendedoras e de gestão de negócios.

Esse trabalho é realizado com base na Andragogia – método de educação para adultos que leva em consideração a experiência das pessoas e utiliza como motivação a resolução de problemas e a aplicação imediata daquilo que se aprende -, na dinâmica de grupos – usando a linha humanista, que acredita no potencial do ser humano de enxergar a solução para os seus próprios problemas e modificar o comportamento para chegar a um resultado diferente – e na teoria Effectuation.

Esta última, desenvolvida pela americana Saras Sarasvathy, vê o empreendedorismo não como um dom ou conjunto de características, mas como um conjunto de habilidades que são desenvolvidas pela prática e experiência.

Em vez de focar no desenvolvimento de um plano de negócios baseado em previsões para o futuro, a metodologia da Aliança se utiliza da abordagem da teoria Effectuation para estimular os microempreendedores a criarem e ampliarem seus negócios a partir do que eles têm, desenvolvendo três pilares fundamentais: Quem são (identidade, sonhos e autoimagem); O que sabem (conhecimentos e experiências); e Quem conhecem (rede de contatos). Esse processo de desenvolvimento do microempreendedor resulta em seu empoderamento e autorreconhecimento como tal.

“Empreendedorismo é algo que se aprende, não nos livros, mas praticando. Incentivamos os empreendedores a colocarem a mão na massa e a aprenderem fazendo”, ressalta Helena.

Territórios, redes e diversidade

Para Vandré, inclusão social é um tema caro para o Brasil e deve estar presente em todas as esferas políticas.

“Acreditamos que cada pessoa – pobre ou rica – tem a capacidade de mudar sua vida, desde que amparada por uma ambiência de políticas e programas que permitam essa ação. Ou seja, oportunidades básicas e descentes de educação, saúde, mobilidade, cultura e bem estar. Criada essa ambiência, o empreendedorismo inclusivo permite mudar as realidades de pessoas e das comunidades onde elas vivem.”

O diretor-presidente do CIEDS acrescenta a importância do território e do trabalho em rede para o sucesso da ação empreendedora. “É com base no contexto local, no diagnóstico das potencialidades – e há potencialidades em 100% das comunidades -, que implementamos projetos de redes de desenvolvimento  econômico  e social com base no empreendedorismo. São redes porque sempre atuamos com organizações  e atores  locais no intuito de promover ações coletivas e colaborativas que permaneçam nas comunidades mesmo após o término de nossa atuação.”

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E acrescenta ainda o caráter diverso dessas redes. “No contexto local também atuamos com grupos específicos ou minoritários, como mulheres chefes de famílias em favelas, jovens que não estudam ou trabalham, minorias LGBTI [Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais, Pessoas Trans e Intersex] e vários outros. São redes bem estruturadas e diversas que garantem uma ambiência propícia ao empreendedorismo inclusivo.”

Fortalecer ecossistema de apoio é o caminho

A atuação da Aliança Empreendedora se baseia na crença de que o fortalecimento de apoio ao microempreendedor é a chave para o desenvolvimento do setor no Brasil. Nesse sentido, uma das demandas se refere à oferta de crédito adequado a essa parcela da população.

“Mais de 50% dos empregos gerados no Brasil vêm das micro e pequenas empresas. Parece que o sistema financeiro está acordando para o potencial desse público, que não é um público que vai até o banco pedir empréstimo. Ele precisa que o sistema financeiro se adeque aos seus padrões, não o contrário”, observa Helena.

A inovação na formação é outro elemento considerado preponderante pela Aliança para o apoio ao empreendedor de baixa renda e, consequentemente, contribuição com a geração de renda do país.

“As organizações da sociedade civil e o Sistema S, que oferecem cursos técnicos para essa população, precisam trazer propostas mais inovadoras, pois esse público empreende com o que sabe fazer e os cursos que são oferecidos são sempre nas mesmas áreas como beleza, consertos, etc. A consequência é a grande concorrência e a baixa inovação desses negócios de pouca complexidade. Esse cenário vai mudar quando essa parcela do ecossistema começar a oferecer cursos mais interessantes que possam abrir um leque de opções aos empreendedores.”

Responsabilidade de toda a sociedade

Para Vandré, a responsabilidade de propiciar todas essas condições é coletiva e deve ter como base transparência, indicadores e responsabilidades definidas e, acima de tudo, compromisso com a inclusão e a transformação social e econômica das pessoas mais excluídas do Brasil.

“Governos devem fazer parcerias com organizações que atuam junto aos mais pobres, universidades devem abrir suas bolhas acadêmicas para ir ao encontro das realidades e discrepâncias sociais gritantes no entorno de seus campus, empresas e filantropos devem se despir de suas vaidades e atuar de forma colaborativa para, junto com governos e organizações locais, promover impactos coletivos duradouros e inclusivos. Esse é um processo construído a várias mãos.”

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Helena também observa a importância da comunicação de exemplos junto a esse público. “É uma questão de representatividade. Precisamos comunicar mais casos de sucesso de microempreendedores, pois eles são a imensa maioria no Brasil, geram um impacto positivo imenso e são invisibilizados. Trazendo suas histórias à tona, inspiramos muito mais gente a se estruturar, buscar informações e fazer a roda da economia girar de forma mais justa.”

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