No Brasil, grande parte das mulheres que empreendem com costura sustenta suas famílias a partir do próprio trabalho. É o que mostra a pesquisa nacional realizada pelo Programa Moda Justa e Sustentável da Aliança Empreendedora em 2023: 46% das costureiras entrevistadas afirmaram que a costura é uma fonte importante para o sustento familiar, e quase 22% sustentam suas famílias exclusivamente a partir dessa atividade. Mesmo em meio a tantos desafios, essas mulheres seguem criando, consertando, recriando e inovando, muitas vezes fora dos grandes centros da moda.
No bairro Restinga, na periferia de Porto Alegre, a empreendedora Ana Paula dos Santos Mendes, de 44 anos, do Centro Cultural Raízes, é uma dessas potências. Para ela, vestir sempre foi um ato de criatividade, sobrevivência e afeto, antes mesmo de se tornar um negócio. Filha de trabalhadora doméstica, ela cresceu em um contexto em que as roupas chegavam por meio de doações e reaproveitamentos. “A calça jeans virava saia, a camiseta virava short”, destaca. Nas trocas de roupas entre irmãs e primas e a convivência próxima com ateliês de fantasias, a criatividade foi estimulada como uma linguagem possível.
Empreendedorismo, sonhos e rede de apoio
Ana Paula lembra que se reconheceu como empreendedora quando percebeu o impacto do seu trabalho. “Eu me enxerguei como empreendedora quando via o sorriso em cada mercadoria entregue”, conta. Era ela quem decidia o que produzir, como produzir e para quem produzir.
Para a empreendedora, moda é sinônimo de continuidade e cuidado. “É criar conexões entre quem usa, quem produz, quem vende e quem divulga, com valorização em cada etapa. É saber que não é sobre uma peça com início, meio e fim e saber que o amanhã depende do hoje”, completa.
Empreender na moda também é sinônimo de desafios. “O maior obstáculo é a falta de incentivo e de dinheiro para investir. Muitas vezes o nome de uma grife pesa mais do que a qualidade do projeto”, relata Ana Paula. É nesse cenário que a atuação de programas de apoio se torna fundamental.
Foi nesse contexto que Ana Paula e outras 16 empreendedoras gaúchas encontraram no projeto “Linhas do Recomeço” um espaço de aprendizados, trocas e fortalecimento. O projeto foi realizado pelo Programa Moda Justa e Sustentável da Aliança Empreendedora em 2025, em parceria com o Instituto Lojas Renner, com o objetivo de levar capacitação e apoio financeiro para costureiras afetadas pelas enchentes de 2024.
“A experiência foi repleta de respeito. Cada mulher era vista a partir do seu negócio, do seu momento e dos seus desafios”, conta. O acesso às ferramentas do programa, especialmente a de planejamento, ampliou seu olhar e abriu caminho para a realização de antigos sonhos.
O recurso recebido por ter se destacado no projeto possibilitou algo essencial: mobilizar outras mulheres. Hoje, Ana atua com mobilização social entre costureiras, conectando oportunidades, ensinando o uso de ferramentas digitais, incentivando o retorno aos estudos e acompanhando outras mulheres em seus primeiros passos no empreendedorismo.
E o próximo sonho já está desenhado: a criação de um espaço colaborativo, com oficinas e formação em temas como gestão e economia, além de um ambiente que acolha as crianças. O desejo dialoga diretamente com a realidade das mulheres que atuam na costura no Brasil: 77% das entrevistadas na pesquisa são mães, e 85% utilizam os próprios cômodos do lar como espaço de trabalho, conciliando produção, cuidado e vida doméstica.
Apesar dos desafios, Ana Paula é uma agente de transformação. Ela se orgulha de ver a diferença na rotina de muitas mulheres que, inspiradas por ela, buscam retornar aos estudos, procuram oportunidades e se inspiram mutuamente.
Mensagem para outras mulheres
A história de Ana Paula mostra que a moda pode ser pertencimento, renda, rede de apoio e futuro. No Dia Internacional da Mulher, ela deixa um recado potente para quem empreende ou sonha em empreender:
“Suas ideias são importantes. Vocês são talentosas. Pode parecer difícil, mas juntas vamos fazer diferente. Tudo isso existe porque existiram mulheres que seguiram em frente e acreditaram na transformação. Que as nossas ações ecoem oportunidades e que o ecossistema ecoe sucesso para todas nós.”
Programa Moda Justa e Sustentável: um alicerce para o empreendedorismo feminino
O Programa Moda Justa e Sustentável da Aliança Empreendedora é uma iniciativa que visa construir um futuro mais justo e ético através do empreendedorismo no setor têxtil. O programa foca no fortalecimento de microempreendedores, especialmente costureiras de reparo de roupas, donas de marcas de moda autoral, oficinas de costura e, mais recentemente, brechós/bazares.
O Programa já apoiou 22.900 pessoas, sendo 94% do gênero feminino e 74% negros e indígenas.
Histórias como a de Ana Paula reforçam a importância de investir em iniciativas que reconheçam, fortaleçam e deem visibilidade às mulheres que sustentam suas famílias e territórios por meio da moda justa e sustentável.