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Qual é a cara do empreendedor brasileiro?

Qual é a cara do empreendedor brasileiro?

Não é de hoje que pesquisas revelam que o perfil do empreendedorismo brasileiro vai muito além das grandes empresas de sucesso com faturamento mensal na casa dos seis dígitos. Conheça um pouco sobre a realidade do empreendedorismo brasileiro e surpreenda-se com a quantidade de empreendedores que você já conhece

Imagine um empreendedor brasileiro atuando no dia a dia do seu negócio. Tente visualizar a rotina dessa pessoa e os desafios que ela enfrenta diariamente, gerindo o seu empreendimento, organizando as finanças, negociando com clientes e fornecedores. Pronto, pensou? Provavelmente nesse exercício de imaginar a imagem de um “empreendedor”, a sua mente ilustrou um homem branco e possivelmente engravatado, com alto poder aquisitivo, que carrega documentos importantes em uma maleta e chefia uma grande empresa com vários colaboradores e uma rotina repleta de reuniões, não é mesmo? Se essa foi sua ideia inicial sobre um “perfil empreendedor” saiba que assim como você, muitas pessoas ainda pensam que essa é a cara do empreendedorismo no Brasil, mesmo com pesquisas e histórias de empreendedores confirmando outra realidade.

Se entende que hoje no imaginário social a palavra empreendedorismo ainda carrega muitos conceitos que não representam a realidade desse setor, principalmente no contexto brasileiro. Em uma rápida pesquisa na internet do termo “empreendedorismo”, o principal buscador aponta mais de 16 milhões de resultados em menos de um segundo. Entre os primeiros resultados nos conteúdos de imagem, homens brancos de gravata e com roupas formais parecem nos dizer que essa é a cara do empreendedorismo brasileiro. E não para por aí: ao mudar a busca para “mulheres empreendedoras”, isso se repete levando em conta a indicação do gênero: mulheres brancas com roupas sociais e em ambientes formais.

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Porém a realidade está bem longe desse retrato. Hoje se estima (IBGE 2016) que 50,1% dos negócios formalizados são compostos por microempreendedores, ou seja, pequenos negócios com faturamento anual de até R$ 60 mil. Além disso, de acordo com o Global Entrepreneurship Monitor (GEM) 2016, as mulheres brasileiras empreendem mais que homens. A taxa de empreendedorismo entre as pessoas que possuem um negócio com até três anos e meio de existência apontou que 15,4% dos empreendimentos foram iniciados por mulheres, enquanto que 12,6% foram iniciados por homens. Essa mesma pesquisa ainda revela que mais de um terço (34,6%) dos empreendimentos iniciantes geram uma renda familiar de três até seis salários mínimos, o que configura o negócio como um microempreendimento.

E quem é esse microempreendedor no Brasil?

A cidade de Curitiba no Paraná é conhecida como uma das capitais mais ecológicas do Brasil. Com mais de 30 parques que respiram com a cidade, foi também o local onde Adriano Stella, de 32 anos, descobriu a jardinagem indo além da beleza dos parques e casas da cidade quando passou a empreender nessa área. Uma ideia que veio ainda da sua infância, quando com nove anos o curitibano já ajudava cheio de curiosidade seu pai e seu avô na jardinagem de casa, onde a estrutura e a renda familiar era pequena e simples. Carpir e cuidar de ervas daninhas, plantar flores da estação, poda de árvores, fizeram parte do seu jardim de infância particular, e anos mais tarde ele se viu unindo essa memória com o seu desejo de ter o seu próprio negócio.

A ideia de empreender com jardinagem veio em 2013 quando Adriano participou de uma capacitação em gestão voltada para quem tem uma ideia de negócio do projeto Geração Y, da Aliança Empreendedora. Foi nesse momento que Adriano viu que poderia se tornar um empreendedor. “Tive um salto evolutivo como pessoa e foi uma grande transformação que me impacta até hoje! Após conhecer a Aliança Empreendedora não parei mais de ver o empreendedorismo em tudo o que faço, não apenas como negócio mas também como parte da minha vida pessoal”, conta Adriano.

O empreendedor não deixou que a baixa renda familiar o abalasse. Após perceber que a atividade podia ser uma fonte de renda ele continuou na busca de conhecimento para estruturar o seu pequeno negócio, e em 2015, se formalizou com a Aquarela Jardins, uma empresa de serviços de jardinagem que reconecta as pessoas com a natureza. “Aprendi que empreender não é apenas ter um negócio de sucesso mas sim, arriscar, falhar e recomeçar quantas vezes for preciso. É trabalhar com o que se tem e desenvolver meios para materializar nossos sonhos e nossos objetivos. E isso eu fazia no dia a dia. Já empreendia e não sabia, e vejo que na prática muitos empreendem e não sabem ou não se reconhecem como empreendedores. Isso prova que todos são capazes e podem empreender”, explica o empreendedor.

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Para Adriano Stella o empreendedorismo se tornou além de um caminho para fonte de renda, uma ferramenta de desenvolvimento pessoal que assim como em outras histórias de empreendedores, se refletiu na comunidade em que o Adriano está inserido. “Eu vejo o microempreendedorismo no Brasil como a profissão do futuro! E estamos caminhando até lá. A arte do empreender torna as pessoas livres e independentes de si mesmas. Empreender transforma o um e o todo perante o nosso meio social”. Com esses aprendizados além de empreender com a Aquarela Jardins, Adriano criou em 2016 o projeto White Brush, uma iniciativa de limpeza e conservação de espaços físicos com impacto social que tem o objetivo de capacitar profissionalmente mulheres que cumprem pena no Craft (Centro de Regime Semi-Aberto Feminino de Curitiba). Com esse projeto Adriano foi selecionado como ganhador da categoria Negócio com Impacto Social, do Geração Empreendedora – Desafio Paraná 1ª edição.

Dentro desse cenário a Aliança Empreendedora é uma entre várias organizações do ecossistema de apoio ao microempreendedor de baixa renda no Brasil. Com 13 anos de atuação, a organização já apoiou mais de 65.000 microempreendedores em todo o Brasil, promovendo o desenvolvimento de habilidades empreendedoras, capacitando, e conectando uma rede de apoio e parceiros. A viabilização desses acessos e conhecimento tem o objetivo de promover o que chamam de “Inclusão Empreendedora”, gerando aumento na oferta de serviços, promovendo o desenvolvimento das comunidades assim como a geração de renda local.

Como cofundadora e diretora executiva da Aliança Empreendedora, Lina Maria Useche Jaramillo, viu nascer uma organização que com poucos recursos e conhecimento, buscou gerar ferramentas e metodologias que ajudassem gratuitamente microempreendedores a iniciar e melhorar seus negócios e a se conectarem a uma rede de apoio que os impulsione.

Sobre o perfil dos empreendedores brasileiros, Lina lembra da importância de dar espaço e voz para os diferentes perfis que compõe esse cenário. “Acreditamos que todos podem empreender e que o empreendedorismo é uma ferramenta poderosa de inclusão econômica e social, mas sabemos que muitas barreiras precisam ser quebradas e a principal delas diz respeito à representatividade dos microempreendedores. Quando se retrata de forma real, a “cara” do empreendedorismo brasileiro, as pessoas se reconhecem, empoderam, sua autoconfiança aumenta, e se sentem capazes de investir na sua jornada empreendedora”, reflete Lina.

“Apoiar microempreendedores a crescer é uma missão de extrema relevância para nosso país, pois são eles que fazem a diferença todos os dias na nossa economia e no desenvolvimento social do Brasil”.

Assim como o Adriano no início de seu empreendimento, muitos donos e donas de pequenos negócios não se enxergam como empreendedores. Isso em parte por questões culturais e sociais com discursos que durante anos personificaram o empreendedor apenas como um grande empresário de sucesso. O secretário da Secretaria Especial da Micro e Pequena Empresa do Governo Federal (SEMPE), José Ricardo Veiga, conta que devido a isso boa parte dos empreendedores brasileiro não reconhecem também a necessidade de se formalizar, de melhorar a gestão de seu negócio, ou até mesmo sobre o impacto positivo que seus negócios trazem para a qualidade de vida local. “O microempreendedor de baixa renda tem iniciativa, mas acaba fazendo de maneira empírica na tentativa e erro, e muitas vezes ele já está empreendendo mas não se enxerga como empreendedor”, explica.

Um dos caminhos para melhorar essa autopercepção é promover o acesso a comunicação, serviços e oportunidades para esse público. “Quando olhamos para o Brasil, com um tamanho continental, existe a própria questão do território para chegar e alcançar esse empreendedor. Por isso é importante uma rede conectada e organizada, organizações chegando lado a lado com o empreendedor ocupando diferentes espaços, de acordo com a sua especialidade, não disputando espaço e sim unindo forças no ecossistema”.

Dados e pesquisas já indicam que a “cara” do empreendedor brasileiro vai além do que estamos acostumados a imaginar, e com isso, o processo de apoio a esse público também exige reflexões além da criação e entrega de ferramentas de gestão. “Corrigindo esses pontos – conscientização, acesso a serviço e conhecimento, e capacitação -, o empreendedor melhora a sua conexão e consequentemente o acesso a mercados e microcrédito”, reflete José Ricardo.

 

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