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Lições do microempreendedor brasileiro em 2018 e tendências para 2019

Lições do microempreendedor brasileiro em 2018 e tendências para 2019

Ano novo costuma chegar com planejamento e mudanças para ajustar metas e objetivos. É tempo de aprender com as experiências que deram certo, sejam nossas ou de outras pessoas, e traçar novas linhas.

A Aliança Empreendedora traz aqui algumas lições de 2018 que iluminam boas perspectivas e também tendências para começar bem o ano de 2019.

Lições aprendidas

Mulheres são excelentes empreendedoras

No Brasil, as mulheres ultrapassam numericamente os homens na criação de novos negócios e em sua manutenção. De acordo com o estudo Global Entrepreneurship Monitor (GEM) de 2016, coordenado pelo Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequena Empresa (Sebrae) e pelo Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade, o Brasil é um dos três países onde a população feminina é mais propícia a empreender. As mulheres são conhecidas por serem boas líderes e até melhorarem o resultado das empresas.

Na Aliança Empreendedora, 60% do público atendido é composto por mulheres. Célia Regina Procópio dos Santos é uma delas. Ela trabalha com produção de uniformes desde 2003 em São Paulo. “Empreender, para as mulheres, parece natural, porque temos mais facilidade para delegar tarefas e manter a pontualidade das entregas”, avalia.

Natália Tonin Gonzalez, empreendedora que trabalha em Florianópolis, avalia que a mulher é muito articuladora e consegue ter uma visão geral das coisas: “Não é que o homem não tenha, mas eu vejo a mulher como um ser que historicamente cuida da casa, depois vai para o trabalho, que cuida dos filhos, e assim consegue articular vários campos da vida. Acho que isso acaba sendo um fator benéfico para a gente ao empreender”.

A força do empreendedorismo jovem na periferia

A força do empreendedorismo nas periferias brasileiras é reconhecida como motor para o desenvolvimento de soluções criativas e inovadoras, que são criadas por quem vive os problemas no dia a dia e ajudam a dinamizar as economias locais, proporcionando geração de renda e levando produtos e serviços necessários às comunidades.

Segundo o Sebrae, o número de Microempreendedores Individuais (MEIs) alcançou 7,7 milhões em 2017. Mas quantificar o número de empreendimentos que surgem nas periferias e o seu impacto ainda é difícil, porque muitos deles não são formalizados. Isso significa que o número pode ser bem maior.

É grande o número de jovens que começam negócios dentre os microempreendedores: Dados do GEM de 2016 apontam que no Brasil há maior intensidade empreendedora entre jovens de 18 a 34 anos.

É o caso de William Gomes da Silva, que criou o empreendimento SELECTED BARBER SHOP em Sarandi, zona norte de Porto Alegre, e hoje já tem uma segunda unidade em Florianópolis, para onde se mudou com a família.

William tem 34 anos e venceu o concurso Desafio Brasil 2018, do Programa Geração Empreendedora, na categoria jovem empreendedor atuante. “Tudo foi conquistado com muita convicção e fé. Muita coisa mudou. Eu era um morador de rua, ex-presidiário, e com muita força de vontade consegui mudar minha história, recuperar meu caráter e ainda ajudar a transformar a vida de outras pessoas. Isso é prova de que qualquer um pode mudar sua história, por mais difícil que seja. É para isso que o Selected foi criado. Não para fazer se der certo, e sim para fazer até dar certo”, diz ele.

O microempreendedor gera macroimpacto na sua região

Não é porque o empreendedor é micro que o impacto que ele gera é pequeno. Ao contrário.

De modo geral, os microempreendedores enxergam nos desafios da própria comunidade oportunidades para geração de negócios, levando produtos e serviços que não estão disponíveis ou são de difícil acesso a comunidades de periferias.

E tem mais!

De acordo com levantamento da Data Favela 2015, 63% dos empreendedores deseja abrir seu negócio na própria comunidade em que vive, e 19% quer empreender em regiões próximas.

Podemos dizer que a potência do impacto vem já ‘embutida’ nas iniciativas dos microempreendedores devido a essa pegada territorial. Além de dinamizar as economias locais e engajar pessoas da comunidade, pesquisa realizada pela Aliança Empreendedora revela que 53% desses empreendedores possuem empregados, e que 20% desses empregos são formais.

Fernando A. Simões Filho, sócio e um dos fundadores da BEMTEVI, avalia que vive o desafio social da comunidade em que está inserido, e por isso pode, melhor do que ninguém, atuar para endereçar os problemas: “Um dos grandes desafios de todo empreendedor social é ter um processo de empatia para que ele esteja sempre entendendo a necessidade daquela pessoa e/ou comunidade que ele busca impactar positivamente. E o empreendedor da base vive isso, é um processo de empatia totalmente diferente e mais natural. Viver a realidade que se quer transformar é muito relevante e pode ajudar positivamente no desenvolvimento do negócio e na superação dos desafios que surgem”.

A vida ensina que todos podem empreender

Em 2018, a indiana Saras Sarasvathy esteve em São Paulo, participando do Encontro Nacional da Aliança Empreendedora, e reforçou a metodologia utilizada pela Aliança de que o empreendedorismo pode se dar a partir de recursos já existentes e da criatividade dos empreendedores.

O trabalho da indiana tem entre as principais premissas o fato de que o empreendedorismo pode ser aprendido por qualquer pessoa, já que não é genético nem exclusivo de ‘gênios’ ou pessoas de sorte.

“Fizemos uma revisão e hoje há mais de 700 trabalhos publicados, elaborados por pessoas que ensinam Effectuation. Muito do que eu digo hoje vem do resultado do trabalho de outras pessoas, não só do meu. E o trabalho original vem de empresários que não tiveram nenhum treinamento com o Effectuation. A vida lhes ensinou. Esses empresários tinham vivido a experiência da incerteza e da falta de previsibilidade, e chegaram a conclusões opostas às da metodologia da lógica causal. Se o futuro é imprevisível, é preciso encontrar outra maneira de tomar decisões. É a lógica do eficaz: na medida em que não podemos controlar o futuro, não precisamos prevê-lo. Vamos trabalhar com aquilo que já temos”, diz Saras.

Quem conhece a história da FEIRA PRETA sabe que a trajetória de Adriana Barbosa começou exatamente assim, com o que tinha em mãos. “Comecei a empreender há 17 anos, e venho de uma família liderada por mulheres. Minha bisavó era muito inventiva, e todas as vezes em que faltava alguma coisa em casa ela cozinhava usando o que tinha na dispensa, e eu entregava. Primeiro, coxinhas; depois marmitex. E lá ia eu entregar. E logo ela resolveu abrir um restaurante em nossa casa. O Effectuation, para a gente, era muito presente. E para nós era a ‘sevirologia’. Quando me vi sem emprego, peguei minhas roupas e comecei a vender, trocar, dentro desse contexto da necessidade, mas com bastante abundância criativa. Eu e uma amiga pensamos em criar uma feira que tivesse a ver com nossa história e representatividade. E viemos de um fracasso – umas das feiras de que participamos sofreu um arrastão e perdemos toda a nossa mercadoria”, relembra ela.

Tendências

Inspiração por outras histórias

Hoje, em dúvida, o microempreendedor consegue acessar uma série de ferramentas e conteúdos, além de histórias de outros empreendedores. O fenômeno das redes sociais tem facilitado esse acesso e permitido que microempreendedores se inspirem com histórias de pessoas que não são iguais a eles, mas que estão em outras comunidades do Brasil vivendo a mesma realidade, com trajetórias similares e que servem de inspiração.

“Não é só uma tendência, mas uma mudança mesmo de paradigma para os microempreendedores. As redes sociais, sites, enfim, têm ajudado muito a expandir o leque de conteúdos e casos inspiradores. Existem cada vez mais plataformas que baseiam seus modelos em divulgar histórias inspiradoras. A própria Aliança Empreendedora usa muito essa possibilidade no Tamo Junto, com uma seção só com histórias de empreendedores. Pode parecer uma coisa que está disponível há muito tempo, mas no caso do microempreendedor da base da pirâmide, esse acesso chegou um pouco mais tarde”, diz Lina Useche, Diretora Executiva da Aliança Empreendedora.

Bom uso das ferramentas disponíveis

Mais do que buscar e testar novas ferramentas, uma tendência verificada pela Aliança Empreendedora é que os microempreendedores têm buscado aprender a usar melhor as redes em que já estão inseridos.

Aprender a usar melhor o WhatsApp, o Instagram e o Facebook para vender produtos, atrair mais clientes, promover a marca e se comunicar melhor com o consumidor tem sido constante, e deve ser uma tendência continuada em 2019.

“Temos visto os microempreendedores usarem melhor suas redes para ampliar o escopo de clientes, aumentar as vendas, chegar mais perto das pessoas. E usá-las como um ótimo canal de comunicação para receber feedback de seus clientes”, diz Lina.

Produtividade x qualidade de vida

Uma outra tendência percebida pela Aliança Empreendedora, que deve continuar forte em 2019, é como conciliar a produtividade com a qualidade de vida. O dia a dia dos empreendedores é sempre muito corrido, muitos deles fazem tudo em seus negócios, cuidam da venda, produção, caixa, das finanças estoques etc. E isso obviamente pode trazer cansaço e esgotamento.

“Muitos empreendedores criam seu negócio em um primeiro impulso e se sentem felizes e realizados por trabalhar o dia todo, porque afinal de contas estão fazendo uma coisa que amam fazer. Mas chega uma hora em que esse excesso de trabalho cobra seu preço. Um dos conteúdos mais acessados no Youtube da Aliança Empreendedora é sobre gestão do tempo. Então é uma dor dos empreendedores, e o modelo mental tem mudado. É preciso encontrar formas de ser mais produtivos para não ter que trabalhar tantas horas durante o dia e ter tempo para se cuidar”, avalia Lina.

Se o microempreendedor se esgota, não dá conta de enfrentar os desafios de sua jornada. A tendência é desenvolver um olhar atento a essa questão, de como gerenciar melhor o tempo e, ainda assim, fazer entregas mais produtivas. O microempreendedor, muitas vezes, trabalha sozinho em seu negócio, e se ficar doente ou indisponível, isso afeta diretamente suas receitas de vendas. Quanto mais o empreendedor se cuida, mais apto está a cuidar do seu negócio.

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