Aliança Empreendedora carregando
Blog
Artigo: Empreendedorismo no Brasil – De necessidades e oportunidades ao desenvolvimento

Artigo: Empreendedorismo no Brasil – De necessidades e oportunidades ao desenvolvimento


No dia 26 de Abril foram lançados os resultados sobre o empreendedorismo no Brasil em 2010, fruto da pesquisa  global realizada todos os anos pelo GEM (Global Entrepreneurship Monitor) Consortium (http://www.gemconsortium.org/). Apesar de não contar com importantes países como Índia e México, o relatório anual sobre o Empreendedorismo no Mundo do GEM traz uma série de dados e conceitos interessantes e úteis para quem quer saber mais sobre onde estamos e o que devemos e podemos fazer para melhorar o ambiente do empreendedorismo em nosso país.

Um destes conceitos promovidos pelo GEM é o que diferencia o empreendedorismo de necessidade do empreendedorismo de oportunidade. No primeiro, o empreendedor inicia um negócio porque está desempregado e precisa, de algum jeito, “se virar” para pagar as contas e sobreviver. Já no empreendedorismo de oportunidade, o empreendedor inicia um negócio porque viu uma necessidade não atendida, um nicho de mercado com poucos competidores ou outra boa chance de ganhar dinheiro montando um negócio.

Segundo dados da pesquisa, nas últimas 9 edições o índice do Brasil em empreendedorismo por oportunidade cresceu gradativamente de 8,5%, em 2001 para 9,4%, em 2009 – a maior taxa até então, contra 5,9% da taxa de empreendedorismo por necessidade em 2009, ou seja, para cada 1,6 empreendedor por oportunidade temos um por necessidade.

Se pararmos de ler por aí podemos pensar “Hum! Que ótimo! Estamos mais ricos e nos desenvolvendo!”. Mas se continuarmos na leitura do relatório, vamos ver que, sim, estamos mais ricos, mas também veremos que não estamos nos desenvolvendo tanto assim.

Mesmo sendo o sexto país mais empreendedor quando comparado à outros países de situação econômica semelhante, o Brasil tem a menor proporção (8,2%) de empreendimentos com algum conteúdo inovador entre todos os países analisados e nota-se que os empreendedores brasileiros têm pouca percepção quanto à nichos de mercado, pois 95% dos negócios enfrentam  concorrência direta. Além disso, o Brasil apresenta uma das menores intenções de inserção no mercado internacional, onde apenas 10,6% dos empreendedores manifestam a intenção de venderem para clientes de fora do país.

Com estes dados, temos de parar e refletir sobre três questões:

1 – Como é que o índice de empreendedores que iniciam seus negócios por “oportunidade” cresce se a inovação e orientação internacional diminui ou fica na mesma?

2 – Como é que a o crescimento da economia e a renda influenciam estes indicadores e vice versa?

3 – O que fazer para não apenas crescer mas também se desenvolver?

Tanto para a primeira como para a segunda questão é possível perceber pelos dados do GEM que a noção e menção de “oportunidade” varia de acordo com o crescimento da economia e da renda, ou seja, se mais pessoas tem mais opções e uma melhor situação financeira, um número cada vez menor de pessoas “declara” que inicia um empreendimento por necessidade.

Mas, se sabemos que não inovamos, que não olhamos para oportunidades no mercado externo, e que 95% dos negócios enfrentam concorrência direta, como podemos dizer que nosso empreendedorismo de oportunidade tem crescido?

Além disso, é possível perceber um certo “pré” conceito existente, de que empreendedores de baixa renda necessariamente iniciam seus negócios apenas por necessidade, o que não é verdade quando vemos a grande quantidade de pessoas que baixa renda que iniciam seus negócios ao perceber oportunidades em suas comunidades, seja para montar uma academia ou lan house com horários destinados para idosos, uma bicicletaria que atende em casa, uma loja de vestidos de festa para aluguel acessíveis ou uma livraria e locadora evangélica. Em todos estes casos, tratam-se de microempreendedores que viram oportunidades e desenvolveram diferenciais em relação ao que já existia em seu mercado local.

Podemos dizer que estes empreendedores são de “necessidade” só porque são de baixa renda? Podemos dizer que foi apenas o crescimento da economia e de sua renda que os transformou em empreendedores de “oportunidade”?

Mais importante do que saber o que dizer ou qual foi a motivação “declarada” pelos empreendedores para iniciar seus negócios é refletirmos sobre as diversas realidades, desafios, objetivos e melhorias a serem alcançadas no desenvolvimento do ambiente do empreendedorismo brasileiro. Melhorias concretas e duráveis para o ambiente empreendedor, seja para momentos de crise como para fases de crescimento econômico.

Muitos objetivos e melhorias podem e devem ser implantadas como melhorias na educação (básica, técnica e superior), na infra-estrutura de transportes e comunicação, na redução de tempo e custos de impostos e burocracia, na ampliação do acesso a crédito, na promoção e incentivos à pesquisa e inovação, na promoção à exportação e cooperação internacional, assim como no fomento da cultura empreendedora.

Como bons exemplos de que não estamos parados, o Brasil acaba de alcançar a faixa de 1 milhão de microempreendedores individuais formalizados em pouco mais de 1 ano pela Lei do Microempreendedor individual (www.portaldoempreendedor.org.br), a ampliação de ofertas de microcrédito, o crescente número de recursos e editais públicos de investimento em inovação pela FINEP (www.finep.gov.br), além de iniciativas e organizações voltadas para a promoção da cultura empreendedora como a Semana Global do Empreendedorismo (www.semanaglobal.org.br) realizada anualmente,  a ONG Junior Achievement disseminando o empreendedorismo em escolas (www.jabrasil.org.br) e o Prêmio Aliança de Empreendedorismo Comunitário, (www.premioalianca.org.br) voltado para o reconhecimento de microempreendedores de baixa renda que são exemplos de superação, impacto e criatividade em suas comunidades.

De tanta coisa ainda a ser feita para melhorar o ecossistema do empreendedorismo brasileiro, o que nunca devemos é perder de foco e vista que empreendedorismo e desenvolvimento trata-se, essencialmente, de investir em gente e no desenvolvimento de suas competências e talentos, para que assim possam cada vez mais sonhar, acreditar, criar, melhorar e ir mais longe, em um mercado global formado e movido por outras pessoas que nunca param de sonhar, criar, melhorar e correr!

Rodrigo Brito é sócio-diretor da empresa ReLab – Laboratório de Transformação, além de ser co-fundador e diretor executivo da Aliança Empreendedora, organização que atua no fomento e apoio a microempreendedores de baixa renda no Brasil – www.aliancaempreendedora.org.br.

 

Comentários