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Empreendedorismo e comunicação: uma via de mão dupla

Empreendedorismo e comunicação: uma via de mão dupla

Conheça o case de sucesso de uma das empreendedoras apoiadas pela Aliança Empreendedora, que viralizou na internet e fez da fama uma oportunidade de fortalecer seu negócio e gerar mais impacto social.

No início deste ano, a microempreendedora carioca Raquel Motta ficou famosa após sua participação no programa É de Casa, da Globo, virar meme no quadro “Isso a Globo Não Mostra”, do Fantástico. Na ocasião, o programa fez piada com a reação da apresentadora Ana Furtado quando a artesã contou que uma carteira sustentável produzida por ela custara apenas três reais.

A repercussão em torno do episódio foi imediata e Raquel viu o número de seguidores de sua página pessoal no Instagram passar rapidamente de 700 para quase 200 mil. A experiência trouxe à artesã aprendizados, oportunidades e desafios no que se refere ao lugar da comunicação no campo do empreendedorismo.

Muito tem se falado sobre o papel da comunicação nos mais variados nichos. No campo socioambiental, cada vez mais se discute a importância da comunicação não apenas como ferramenta, mas como estratégia transversal e estrutural para os mais diversos objetivos das organizações e redes, tais como mobilização de recursos, engajamento em torno das causas, advocacy, entre outros.

No campo do empreendedorismo não é diferente. Micro e pequenos empreendedores têm se atentado para a importância da agenda, com especial atenção ao uso das redes sociais. Em uma sociedade hiperconectada, plataformas como Instagram, Facebook, YouTube e outras têm ganhado cada vez mais espaço e adeptos do ecossistema empreendedor, seja no campo dos negócios, seja na vertente do empreendedorismo social.

Uma das possíveis explicações para esse cenário pode estar relacionada ao ingresso de pessoas cada vez mais jovens no universo do empreendedorismo. De acordo com dados da pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM) 2017, produzida pelo Instituto Brasileiro da Qualidade e Produtividade (IBQP) com apoio do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE), no ano passado, a participação de pessoas entre 18 e 34 anos no total de empreendedores em fase inicial cresceu de 50% para 57%. São quase 16 milhões de jovens em busca de informações para abrir um negócio ou com uma empresa em atividade no período de até três anos e meio. Além disso, é possível observar que a taxa de empreendedorismo entre as pessoas que possuem um negócio em fase inicial é de 20,7% de mulheres, levemente acima dos 19,9% de homens nesse mesmo cenário.

No mesmo ano, a taxa total de empreendedorismo (TTE) no Brasil foi de 36,4%. Em números absolutos, o contingente de empreendedores no país chega a quase 50 milhões de pessoas. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2016, 50,1% dos negócios formalizados eram compostos por microempreendedores, ou seja, pequenos negócios com faturamento anual de até R$ 60 mil.

Case de sucesso

Em sintonia com esse cenário, a Aliança Empreendedora é uma das várias organizações do ecossistema de apoio ao microempreendedor de baixa renda no Brasil. Com 13 anos de atuação, a organização já apoiou mais de 65 mil microempreendedores em todo o país, capacitando e conectando-os em uma rede de apoio e parcerias com o objetivo de promover a chamada ‘inclusão empreendedora’, a partir do aumento da oferta de serviços e do desenvolvimento das comunidades, bem como da geração de renda local.

Raquel é uma dessas empreendedoras que tiveram a chance de fortalecer seu negócio por meio desse trabalho. A artesã participou do programa Guru de Negócios, que oferece apoio a jovens empreendedores no desenvolvimento de seus negócios por meio de mentoria. Raquel foi selecionada pelo programa a partir de seu trabalho na Petit Biscuit, confeitaria artesanal fundada por ela em 2016.

“Eu vi muitas mulheres no meu entorno desempregadas, então eu resolvi ensinar as receitas que aprendi com minha mãe na infância”, conta. Por meio de uma parceria, Raquel, então, comprou e adesivou uma carrocinha e o negócio se tornou um sucesso de vendas, ficando em primeiro lugar na seleção de edital do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) voltado a afroempreendedores.

A empreendedora conta que o recurso do edital será usado na ampliação do negócio, que contará com a capacitação de 60 mulheres no ofício da confeitaria, entre as quais doze serão selecionadas para receber também uma capacitação em empreendedorismo. Essas mulheres serão formalizadas como microempreendedoras individuais (MEI) e formarão uma rede de confeiteiras que produzirão e venderão os produtos da carrocinha da Petit Biscuit, ficando com 50% dos lucros. “Criei esse negócio para gerar lucro e transformá-lo em impacto social”, observa Raquel.

 

Aprendizados

Raquel também é empreendedora social. À frente do Instituto Musiva, organização que há quinze anos promove ações de impacto socioambiental por meio da cultura e da educação em territórios do Rio de Janeiro, ela conta que antes de sua participação no programa É de Casa, não tinha nenhuma página de seu negócio nas redes sociais. A artesã considera como principal impacto positivo da repercussão o reconhecimento de seu trabalho.

“Mesmo com prêmios e certificações, antes era mais difícil firmar parcerias com as empresas. Agora sou recebida como a ‘musa dos três reais’ e gestora do Musiva e vejo como a comunicação é poderosa para a visibilidade de uma instituição. Hoje avalio o papel da comunicação como fundamental na trajetória do meu empreendimento.”

A empreendedora espera que a fama inesperada seja revertida também para as ações realizadas pelo Instituto Musiva. Ela já planeja o lançamento de uma loja virtual de produtos sustentáveis produzidos pelas artesãs do Instituto.

Comunicação para empreender ou empreender para comunicar?

Raquel conta que a oportunidade gerou um nível maior de planejamento e gerenciamento de comunicação, o que demandou a criação de páginas do empreendimento em mídias sociais e uma produção de conteúdo voltada a esses canais, o que antes não era uma preocupação. “Não havia nenhuma estratégia nesse sentido. Estou aprendendo a gerenciar as redes sociais a partir do feedback do meu público e também de consultoria profissional e muito estudo. Não há mais como ficar longe do público que está nas redes sociais”, observa.

Negro Jonathan Silva, CEO da Rede Cenafro – Rede de Afroempreendedorismo Criativo em Alagoas, e mentor de Raquel no programa Guru de Negócios, conta que a comunicação era justamente uma das fragilidades identificadas no empreendimento da artesã.

“Raquel já se comunicava, mas de forma ainda tímida. Ela tinha bons produtos e serviços, mas faltava uma postura mais comunicativa e o uso das mídias sociais em seu favor. Ao longo da mentoria, nós buscamos fortalecer esse aspecto. Ela fez o dever de casa”, conta.

O mentor observa ainda que a repercussão gerada pela participação de Raquel no programa É de Casa contribui para uma mudança de postura frente às redes sociais. “Hoje ela planeja, elabora estratégias pensando no público que quer alcançar, faz melhor uso das ferramentas e interage mais. E está tendo uma visibilidade maior não só do seu negócio, a Petit Biscuit, mas também do Musiva, que é seu empreendimento social. Fico feliz com a oportunidade de ter contribuído com uma parte desse processo”, comemora.

Para Estela Faust, coordenadora de comunicação da Aliança Empreendedora, a importância da comunicação no campo do empreendedorismo está no seu potencial de facilitar e potencializar as relações, criando laços eficientes para o desenvolvimento dos empreendedores em sua jornada. “A comunicação está em todo lugar e no campo do empreendedorismo não é diferente. No entanto, no meio dos negócios ela se faz ainda mais essencial e se apresenta como uma peça fundamental e estratégica, por exemplo, na formação da comunidade onde vivem, no ambiente de trabalho, na relação com fornecedores, em como sua organização se mostra e na própria relação com o cliente ou parceiro”, observa.

Estela afirma que o fortalecimento do trabalho em rede é um dos principais pilares da estratégia de comunicação da Aliança. “A comunicação da Aliança Empreendedora trabalha e valoriza muito a sua rede, pois consideramos que todos os microempreendedores, parceiros e simpatizantes são peças fundamentais para que a gente chegue em mais lugares. Do mesmo modo, estimulamos o fortalecimento da rede de contatos por meio da metodologia com a qual trabalhamos com os empreendedores.”

Para a especialista, o tripé de uma boa estratégia de comunicação está em conhecer bem o público, entender quais são os melhores canais e ter um bom planejamento.

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